Novos olhares para um clássico: Buenos Aires re-visitada. Por Bruna Calegari

06 de setembro de 2017 - Por On.TheList

 

Buenos Aires tem muito mais do que bons vinhos e tango pra oferecer a quem visita com um toque a mais de curiosidade. Faça como os portenhos e adicione “re” como prefixo de tudo: re-lindo, re-comienze, re-visite esta metrópole fascinante. Vou te convidar (e quem sabe até convencer!) a esquecer a Calle Florida, Puerto Madero e a feirinha de San Telmo e explorar as entranhas da cidade. Literalmente.

 

A história começa assim. Eu e meu namorado viemos passar um tempo em Buenos Aires, sem casa fixa. Somos empresários e podemos ter uma rotina flexível. Deixamos de pagar aluguel no Brasil e alugamos um Air.Bnb no Palermo Viejo com sustos equivalentes em um apê todo equipado e com uma cama maravilhosa, pré-requisito indispensável.

 

Estando aqui há 20 dias, já posso dizer que exploramos a cidade de várias formas. Como turistas, mas também como residentes. Fazendo compras no mercado, descobrindo os melhores lugares de empanadas e passeando pelos distritos que foram distribuídos de forma criativa pelo design de serviços da prefeitura local. Vivendo, mesmo. E não importa se você vai passar 3 ou 4 dias, alguma destas dicas vai servir como uma luva pra você se programar – tenho certeza. A princípio, eu não sabia que encontraria quase nada do que indico aqui, por isso reduzi a quantidade de fotos que queria usar para estampar a matéria – pra manter a sua curiosidade bombando na hora de fazer as suas descobertas pessoais!

 

ARTE

Buenos Aires é casa do MALBA, o museu de arte contemporânea Latino-americana. É um passeio imperdível se você quer compreender nossas raízes como membros desse continente onde a mistura é o fator principal. Além de uma cópia do Manifesto Antropofágico e o próprio Abaporu, de Tarsila do Amaral, o museu é lindo e tem sempre exposições muito bem curadas. Quando fui, haviam três exposições de artistas mulheres, uma em cada área de interesse: fotografia, derivação e tipografia. As três estavam impecáveis.

A prefeitura estipulou um novo Distrito de Artes, que fica no bairro da Boca, injustamente conhecido apenas pelo pitoresco Caminito e pelo estádio da Bombonera. Se perdendo por lá, você encontra painéis gigantescos de artistas urbanos e grafiteiros de vários cantos do mundo: Japão, Bélgica, Argentina... faltou um Brasileiro (ou pelo menos não encontrei um). Lá também tem a Usina del Arte, um complexo lindo e recém inaugurado que é o centro nevrálgico das ações culturais no bairro, de estilo arquitetônico imponente e totalmente ressignificado (era uma estação de trem) que hoje abriga exposições, cursos e eventos.

Em Buenos Aires o graffiti é uma instituição. Saindo do microcentro já é possível ver por todos os cantos, inclusive de forma bem profunda na cidade: quase todas as estações do eficiente sistema de metrô foram assinadas por algum “dibujador” dentre eles grafiteiros, artistas e desenhistas de HQs. Uma das minhas favoritas (até agora) é a da estação Angel Gallardo, assinada pelo artista tucumano Nazza.

 

 

COMIDA

Depois de citar as intervenções artísticas nas “entranhas” da cidade, vale ressaltar que não dá pra ir embora de Buenos sem comer uma entraña, um corte de carne mega saboroso (mesmo! Sou praticamente vegetariana mas não consigo deixar de desejar uma neste exato momento) que você encontra em qualquer restaurante por $250 pesos = R$50. Comem dois, tranquilamente.

Na cidade das empanadas, não dá pra perder a oportunidade de provar uma a cada esquina, pra matar uma fominha momentânea. Assim como no Brasil encontramos x-salada e coxinha em vários lugares, aqui o hit são as pizzarias que servem empanadas assadas na hora e pizzas ao pedaço. Ah! Esqueça massa fininha e volte à infância com uma pizza à la Pizzaria Itália (clássico curitibano), com a massa de pãozinho farta e crocante! Se não é fã de pizza ou está reduzindo carboidratos (porque afinal todo mundo é fã de pizza) aposte sem medo, porque todo restaurante tradicional em que fomos tem comida boa, farta e com preço justo. As pessoas amam comer fora e ficar horas na “sobremesa”, que aqui significa o tempo de ócio entre o pedido e a conta, que pode durar horas. Ainda assim, dificilmente você encontrará, como no Brasil, um bom restaurante com filas de espera. Isso porque talvez Buenos tenha mais restaurantes do que São Paulo e Rio juntos, além do que, preço e qualidade são inquestionáveis. Argentinos têm, visivelmente, um padrão elevado em relação a comida, se comparado ao padrão brasileiro.

 

IMPORTANTE: sobre empanadas: 1) a mais tradicional é a Tucumana (carne picante) 2) o queijo mussarela deles é diferente do nosso, mais cremoso e menos forte, “puxento” – por isso não se assuste com a quantidade de queijo em tudo que você pede. Como dizem: “no hay falta pedir doble mozzarella”.

 

 

EXPERIÊNCIA

Quando vim pra Buenos pela primeira vez, em 2007, as roupas tinham um preço fenomenal. Viajar pra fazer compras em Buenos Aires era bem comum entre meus conhecidos, e isso mudou bastante. Para a maioria da população, as coisas custam um preço ok, mas itens “de luxo”(não inclusos transporte, alimentação e itens de primeira necessidade) estão caros. Os preços estão exatamente iguais aos do Brasil: do tênis à bolsa de couro, sem distinção. A sorte é que você pode desfrutar de experiências que vão bem além das boutiques de Palermo, e elas são muito mais intensas.

Assistir a uma apresentação do Fuerza Bruta no Centro Cultural Recoleta é obrigatório. Indescritível a mistura de sensações do espetáculo que fica entre teatro, dança, balada, circo e arte digital.

Também vale muito a pena estudar com carinho e experimentar um dos bares secretos portenhos. Estão super na moda – se entrar no FourSquare procurando por “vida noturna” encontra pelo menos 6, como o Frank’s e o Harry Speakeasy. Para minha sorte, no dia do meu aniversário bar caí num que é comandado pelo barman mais premiado da Argentina, Tato Giovanonni, e figura entre um dos 10 melhores bares do mundo.

 

 

O Floreria Atlântico é uma floricultura, mas só pra quem vê na superfície. Abrindo uma porta e descendo pelas escadas (de novo, nas entranhas portenhas) você encontra um bar despretensioso, com staff simpático, música alta e repleto de figuras fantásticas desenhadas na parede. Lá, terá a sorte de tomar o melhor drink da sua vida. Sem exageros. Mais de 40 drinks foram criados lá mesmo, baseados em personagens importantes da história de Buenos Aires. O resto do Storytelling eu deixo pra você completar, quando estiver lá.

 

Outra experiência incrível é se perder pelas livrarias da cidade. A tradição literária argentina é um dos símbolos do país, e a capital é a cidade com maior concentração de livrarias do mundo. A Av. Corrientes é famosa por elas, mas as duas melhores encontrei perto de “casa”, em Palermo: A Libreria del Fondo, na plaza Armênia, e a charmosa Eterna Cadencia. Para os curiosos: lá descobri que existe uma editora chamada “Caja Negra”, que traduziu pela primeira vez ao Espanhol alguns livros sensacionais, que exploram de forma investigativa o tempo presente, de diversos paradigmas. Vale frisar a quantidade enorme de títulos que infelizmente não é traduzida para o português ou publicada no Brasil, o que proporciona agradáveis surpresas da literatura mundial nas prateleiras.

 

 

Descendo da Casa Rosada em sentido a Puerto Madero, você verá o CCK (Centro de Cultura Kirschner, nome que tem causado polêmica por aqui). O antigo prédio dos correios que perdeu sua função foi totalmente reformado e transformado em um complexo cultural de acesso gratuito, com 8 andares e infinitos espaços para arte e cultura. Mais uma vez não vou estragar a surpresa e mostrar o que fizeram lá: apenas vá sem nenhum motivo e se impressione.

 

Por fim, admito: mais do que descobrir as dicas e os segredos, o mais legal é ser turista de vez em quando. Seja na nossa cidade ou em uma cidade que você queira transformar em sua por alguns dias. A nossa capacidade de se deslumbrar diminui a cada dia, e mante-la viva é um dos maiores prazeres que podemos disfrutar. Espero que, mesmo seguindo essas dicas, você ainda se surpreenda muito e seja bem turista, o tempo todo.

 

 

Bruna Calegari é publicitária,

Co-fundadora da Hot Content Mídia e Conteúdo e do Festival Subtropikal.